Segundo procuradores, verba foi recebida por meio do operador Carlos Miranda – ele e ex-governador estão presos. Operação prendeu 10 pessoas, incluindo Jacob Barata filho e presidente da Fetranspor. Dois suspeitos estão foragidos; veja lista.

A investigação do Ministério Público Federal (MPF) que levou à Operação Ponto Final indica que o ex-governador Sérgio Cabral recebeu R$ 122,85 milhões por meio do operador e braço-direito Carlos Miranda – ambos já estão presos. No total, foram movimentados cerca de R$ 260 milhões em propina em troca de benefícios às empresas de ônibus, de acordo com a investigação. Deflagrada nesta segunda-feira (3), a operação investiga propina de empresários de ônibus a políticos e fiscalizadores dos transportes do Rio.

“Ele [Cabral] recebia da Fetranspor em razão de negociatas que fez durante seu governo. Ele recebia prêmios e distribuía entre os membros da organização criminosa (…) Esse é um dos esquemas criminosos dos mais antigos. E ao mesmo tempo é um dos mais maléficos porque atinge a população de baixa renda”, disse o procurador Eduardo El Hage, em entrevista coletiva.

Nesta segunda, seis de oito mandados de prisão preventiva foram cumpridos – dois investigados são considerados foragidos (veja a lista completa abaixo). Outros três mandados de prisão temporária também foram cumpridos.

Na noite de domingo (2), um mandado de prisão foi antecipado, contra o empresário Jacob Barata Filho. Um dos maiores empresários do ramo de ônibus do Rio, Barata Filho foi preso no Aeroporto Internacional Tom Jobim, ao tentar embarcar para Lisboa. Ele já estava na área de embarque quando foi detido.

A polícia tem indícios de que o empresário ficou sabendo da operação e tentava fugir. Por isso, a ação foi antecipada. A defesa nega e diz que Jacob Barata Filho viajava a trabalho e estava com passagem de volta marcada para 12 de julho.

Mandados de prisão preventiva confirmados:

  • Jacob Barata Filho, empresário do setor de transportes, suspeito de ter recebido R$ 23 milhões em propina (preso)
  • Rogério Onofre, ex-presidente do Departamento de Transportes Rodoviários do RJ (Detro), suspeito de receber R$ 44 milhões (preso)
  • Lélis Teixeira, presidente da Federação das Empresas de Transporte do RJ (Fetranspor), suspeito de receber R$ 1,57 milhões (preso)
  • José Carlos Reis Lavoura, conselheiro da Fetranspor, suspeito de receber R$ 40 milhões (está em Portugal e a PF acionará a Interpol para inclusão na difusão vermelha)
  • Marcelo Traça Gonçalves, presidente do sindicato de ônibus e apontado como realizador dos pagamentos (preso)
  • João Augusto Morais Monteiro, sócio de Jacob Barata e presidente do conselho da Rio Ônibus, suspeito de receber R$ 23 milhões (preso)
  • Cláudio Sá Garcia de Freitas (preso)
  • Márcio Marques Pereira Miranda (foragido)
  • David Augusto da Câmara Sampaio (preso)
  • Mandados de prisão temporária confirmados:

    • Carlos Roberto Alves (preso)
    • Enéas da Silva Bueno, suspeito de receber propina na Rio Ônibus (preso)
    • Octacílio de Almeida Monteiro, vice-presidente da Rio Ônibus (preso)

    Ainda segundo a investigação, Rogério Onofre teria recebido mais de R$ 44 milhões. Lelis Marcos Teixeira, presidente da Fetranspor, recebeu pouco mais de R$ 1,57 milhão. Lavouras ganhou mais de R$ 40 milhões, e Jacob Barata Filho recebeu R$ 23 milhões.

    Operação Ponto final

    A Operação Ponto Final busca cumprir nove mandados de prisão preventiva (sem prazo para terminar) e três de prisão temporária, além de 30 mandados de busca e apreensão expedidos pelo juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal. Cerca de 80 policiais federais participam da ação.

    A ação foi baseada nas delações premiadas do ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado Jonas Lopes e do doleiro e operador Álvaro Novis. Os agentes fizeram buscas nas cidades do Rio, São Gonçalo e Paraíba do Sul, no estado do Rio de Janeiro, e nos estados do Paraná e Santa Catarina.

    Esquema por 26 anos

    Segundo o MPF, a investigação do núcleo de transporte da organização criminosa comandada por Sérgio Cabral começou quando Novis, cuja atuação foi revelada pela deflagração da Operação Eficiência, firmou acordo de colaboração premiada com o Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em depoimento à Procuradoria Geral da República (PGR), ele ressaltou que sabia que os pagamentos eram realizados para garantir benefícios relacionados às linhas de ônibus e tarifas.

    Na delação, Novis afirmou que foi contratado pelo presidente do Conselho de Administração da Fetranspor, José Carlos Lavouras, para “recolher regularmente dinheiro de algumas empresas de ônibus integrantes dessa Federação, administrar a sua guarda e distribuir a diversos políticos”.

    As ordens para esses pagamentos, segundo Novis, eram dadas única e exclusivamente por Lavoura, desde 1990 até 2016. Nesses 26 anos, oito governadores passaram pelo Palácio Guanabara: Leonel Brizola, Nilo Batista, Marcello Alencar, Anthony Garotinho, Benedita da Silva, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão.

    Segundo as investigações, o dinheiro era recolhido em espécie nas garagens das empresas e contabilizado através de planilhas. Nelas, estavam o nome de diversas pessoas do setor de transportes, como o próprio Lavoura e Rogério Onofre, ex-presidente do Detro, além de operadores financeiros de Cabral, como Carlos Miranda.

    De acordo com o documento, as investigações indicam o uso da empresa de transporte de valores Trans Expert e Prosegur (inicialmente Transegur) como ferramenta para lavagem e ocultação do dinheiro da propina.

    Na planilha, Carlos Miranda aparecia como CM; Rogério Onofre tinha o apelido de “Lagoa” ou “Mamaluco”. Hudson Braga, preso na operação Calicute, também recebeu recursos da Fetranspor, de acordo com a delação de Novis. Duas contas eram utilizadas para repassar o dinheiro.

    Prisões

    Por volta das 6h30, agentes da PF entraram no apartamento de Lélis Marcos Teixeira, presidente da Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor, que engobla 10 sindicatos do estado) e da Rio Ônibus (sindicato do município do Rio), na Lagoa, Zona Sul do Rio.

    Lélis já havia sido levado em condição coercitiva em outra operação da Lava Jato e desta vez tem um mandado de prisão cumprido contra ele. Já preso, ele ficou até as 9h40 em sua casa com policiais buscavam documentos e outras provas. Foram apreendidos relógios, anéis, colares e HDs (discos rígidos para armazenar aquivos de computador), além de obras de arte, US$ 5,5 mil e mais uma quantia em reais.

    Tranportado em um carro descaracterizado da polícia, Lélis chegou na sede da Superintendência da PF pouco antes das 10h, sem falar com jornalistas.

    Prisão em Florianópolis

    Rogério Onofre, ex-presidente do Departamento de Transportes Rodoviários do Rio (Detro), foi preso em Florianópolis, segundo informações da TV Globo. Agentes da PF também cumprem mandados de busca e apreensão na capital de Santa Catarina e no Leblon, na Zona Sul do Rio, em imóveis ligados a Onofre.

    Segundo investigações, pelas mãos de Onofre passaram pelo menos R$ 40 milhões em propina. Ele é advogado, ex-prefeito de Paraíba do Sul – com dois mandatos – e foi indicado em 2007 pelo então governador Sérgio Cabral, também preso na Lava Jato, para a presidência do Detro, órgão que fiscaliza o transporte intermunicipal no Rio. Em um perfil no Facebook sobre sua gestão, Onofre diz que recebeu autonomia total para combater o crime.

    Policiais federais também foram a um condomínio na orla da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio, para cumprir mandado de prisão contra José Carlos Lavoura, integrante do conselho da Fetranspor. Os investigadores, no entanto, receberam a informação de que ele está em Portugal. A PF vai acionar a Interpol para encomtrar Lavoura.

    Marcelo Traça Gonçalves, presidente do Sindicato de Empresas de Transporte Rodoviário do Rio de Janeiro (Setrerj), foi preso pela Polícia Rodoviária Federal na Via Dutra, altura de Barra Mansa. A detenção ocorreu após alerta da PF.

    Fonte: G1

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