Diego Godín representa bem o jogador uruguaio. A raça e a liderança dentro de campo andam lado a lado com a qualidade de um dos melhores zagueiros do mundo. Com o inseparável mate na mão, o capitão de 31 anos recebeu a reportagem do GloboEsporte.com no ”Complejo Uruguay Celeste”, a casa da seleção bicampeã mundial em Canelones, a cerca de 30 minutos do centro de Montevidéu. Em poucas palavras, o defensor do Atlético de Madrid mostrou que sabe bem o que espera a Celeste nesta quinta-feira contra o Brasil, no Estádio Centenário.

Surpreso com a rápida evolução da Seleção nos últimos meses, Godín procurou saber mais sobre o momento do adversário e atribuiu ao trabalho de Tite o resgate do futebol brasileiro. O zagueiro, aliás, nunca ganhou do Brasil: em três jogos, três derrotas.

– (O desempenho recente) Me surpreende porque o Brasil vinha de anos de irregularidade. Mas não me surpreende tanto depois de conversar com companheiros como Filipe Luís. Ele me contou da importância da mudança do comando técnico. Acho que Tite teve muito a ver com isso. Creio que o Brasil vive o seu melhor momento dos últimos anos – frisou Godín na véspera do confronto pela 13ª rodada das eliminatórias.

Em cerca de 20 minutos de conversa antes do almoço da seleção uruguaia, Godín admitiu que o Brasil deverá ter mais posse de bola por sua maior qualidade técnica, disse que não tem boas recordações da Seleção, analisou a evolução Celeste sob o comando de Óscar Tabárez, citou a eterna preocupação com Neymar e explicou a luta dos jogadores uruguaios por melhores condições de trabalho na seleção e no futebol local. Confira a entrevista:

O que espera do jogo desta quinta-feira?
Será um jogo bonito pela história que tem as duas seleções. Pelo momento atual que vivem Brasil e Uruguai. Estamos fazendo uma boa campanha nas eliminatórias e é sempre bonito enfrentar o Brasil. Vamos estar com nossa torcida, em nosso estádio… É especial. Sabemos o quanto vai ser dificil. Prevejo um jogo de grande desgate físico, sobretudo da nossa parte. Porque o Brasil, pelo tipo de jogadores que possui, certamente terá mais a posse da bola. Vai ser muito disputado.

Qual a estratégia para conseguir a sétima vitória em casa?
Temos que tentar fechar os caminhos que deem facilidade ao Brasil, principalmente pelo lado do Neymar. É quem desequilibra, quem derruba a tática dos adversários. Depois disso, é aproveitar os espaços que apareçam no campo de ataque, tentar roubar qualquer bola e atacar rápido. Sem falar nas bolas paradas, uma de nossas grandes virtudes. Godín é um dos três jogadores da história do Uruguai que ultrapassaram a marca dos 100 jogos pela Celeste: só ele, Maxi Pereira e Forlán. (Foto: Reuters)

Godín é um dos três jogadores da história do Uruguai que ultrapassaram a marca dos 100 jogos pela Celeste: só ele, Maxi Pereira e Forlán. (Foto: Reuters)

Quais lembranças tem desse clássico?
Não joguei muitas vezes contra o Brasil (foram três jogos e três derrotas). O jogo que estivemos mais perto de ganhar foi aquele no Morumbi, em 2007. Abrimos o placar, acho que com Loco Abreu, mas terminamos perdendo por 2 a 1. As experiências de fato não foram boas. Por isso digo que respeito à seleção brasileira, é uma equipe sempre muito difícil de enfrentar. Ainda mais agora. Creio que o Brasil vive o seu melhor momento dos últimos anos.

Tabárez comanda a seleção há dez anos. O que mudou no Uruguai?
Creio que a essência do jogador uruguaio não mudou. Não se perdeu a garra, a competitividade de lutar por cada jogada, cada bola como se fosse a última. Isso se manteve. Mas desde a chegada de Tabaréz tem se dado muita ênfase na busca por um perfil de jogador muito pensante e que não sai do caminho da legalidade. O ”Maestro” sempre dá ênfase ao fair play, ao jogo limpo. O que não nos impede de lutar por cada bola ao máximo e que joguemos com garra. Mas é verdade que essa seleção mantém um perfil nesse sentido e estamos nos destacando justamente por uma conduta muito boa, dentro e fora do campo. É uma característica que o Tabárez conseguiu mudar.

Um país tão pequeno e tão vencedor. Como explica esse sucesso?
Essa é a pergunta que todo mundo faz, é verdade. Somos um país tão pequeno entre duas potências como Brasil e Argentina. Lutar contra isso também te faz crescer de outra maneira, falando do lado futebolístico. Nascemos e já tem alguém falando sobre o que ganhamos, de tudo o que aconteceu. É um país que vive de futebol. Nao é de política, religião ou causas sociais. E creio que isso tenha muito a ver. As crianças já nascem competindo em pequenos campos de seus bairros. Querendo progredir, dar um futuro melhor a seus familiares e chegar até a seleção. Acredito que essa competitividade faz com que se apareçam os talentos, que se busque sempre querer ganhar desde pequeno. Por isso que mesmo sendo uma população tão pequena, nos unimos e conseguimos competir contra grandes potências. A essência vem da competitividade do uruguaio e dessa raça de querer ganhar cada bola.

Como começou a jogar futebol?
Comecei minha carreira como atacante. Joguei assim até os 17 anos. Fiquei com algo de bom, pelo menos, que foram os gols (risos). Jogava no setor ofensivo até que um dia expulsaram um companheiro de defesa e o técnico me pediu para atuar atrás. Fui bem e me pediram para ficar. Não queria muito no começo, mas me adaptei e quatro meses depois disso me puxaram para o time profissional do Atlético Cerro já como zagueiro. Comecei tarde como defesa.

Qual sua análise da evolução do Brasil sob o comando do Tite?
Os jogadores são praticamente os mesmos, ainda que cada treinador convoque os seus e o Brasil tenha muitas opções. Mas esse treinador, pelo que me disse Filipe (Luís), é muito bom. Um cara que trabalha muito bem, que conseguiu uma entrada muito boa com o grupo, a quem os jogadores respeitam e acreditam. Isso me parece que foi a chave principal da volta por cima. E acredito também que um feito que deu muita confiança e o país sempre buscou foi a conquista da medalha olímpica. Isso foi fundamental para essa seleção.

Já pensou na possibilidade de jogar no Brasil como Lugano, Loco Abreu e Martín Silva?
Sinceramente? Não penso nisso. Prefiro pensar no presente. Sempre me perguntam se vou voltar a jogar no Uruguai, algo que também não pensei ainda. Não penso em aposentadoria, em qual clube vou encerrar a carreira. Claro que é uma grande possibilidade, o Brasil é um mercado gigante do futebol. Mas agora estou muito focado no presente, vivendo um grande momento e ainda tenho muitos anos de futebol. Sou jovem (risos).

Gosta de algum clube em especial?
O clube brasileiro que mais acompanho é o São Paulo, naturalmente, por causa do Lugano. Somos muito amigos, além de tudo o que vivemos juntos na seleção. Tive ainda outros amigos no Brasil, Eguren no Palmeiras, Loco Abreu em várias equipes. Mas a relação é mais especial com o Lugano. Quando eu era mais novo, ele viveu sua grande fase no São Paulo e ganhou tudo.

Enfrentar o Neymar não é novidade para você… o que fazer?
É um trabalho de equipe, antes de tudo. Neymar está vivendo um momento incrível, um de seus melhores. É muito difícil dizer como vamos pará-lo, não existe uma fórmula mágica. Se existisse, o futebol seria muito fácil e todos os jogos seriam 0 a 0. Messi não faria gols, Neymar, Suárez, Ronaldo… É uma virtude que Neymar tem, saber como fazer gols, eliminar rivais e fazer com que sua equipe vença. Tentaremos buscar as alternativas durante o jogo em conjunto, porque individualmente é difícil parar um jogador tão habilidoso e rápido. Ainda mais nessa grande fase. Godín e Neymar já se enfrentaram muitas vezes na Espanha. Nesta quinta, o zagueiro vai se preocupar com o craque de novo (Foto: Reuters)

Godín e Neymar já se enfrentaram muitas vezes na Espanha. Nesta quinta, o zagueiro vai se preocupar com o craque de novo (Foto: Reuters)

Na Europa chamam o Neymar de ”piscinero” (cai-cai). Concorda?
É o que eu sempre digo: no futebol, alguém sempre tenta tirar proveito de situações, de jogadas, ver se o árbitro vai marcar pênalti quando você se jogar ou não. Acredito que o jogador é o que se tem de mais transparente e nobre no futebol. Depois é difícil julgar se um árbitro estava condicionado pela pressão de um clube, de um presidente, de uma federação. Mas os jogadores se dedicam a jogar futebol. Você pode tentar enganar o juiz, faz parte do futebol. Não podemos julgar um grande jogador como Neymar pelo fato de se atirar ou não no gramado. Isso me parece injusto. Cada um joga da sua maneira e Neymar é um dos grandes do futebol.

Você também é lider fora de campo e um dos cabeças da luta dos jogadores da seleção contra a empresa que detém os direitos do futebol uruguaio. Como está a questão?
O que está claro é que dentro da legalidade que nos compete, vamos utilizar todas as medidas possíveis para lutar por nossos direitos. As medidas que tomamos foram feitas dentro dessa legalidade. É uma luta por nosso futebol, pelos jogadores, pelo povo que vive de futebol. Queremos melhorar nosso futebol pelo atleta, pelo sócio que paga a mensalidade e vai ao estádio. Que tenha infraestrutura, segurança, que não aconteçam brigas. Começamos isso na seleção e coisas já foram feitas. Pretendemos fazer muitas outras. E no futebol local os jogadores também se mobilizaram. Estamos tentando acomodar a Mutual (o sindicato dos jogadores do Uruguai), que reúne todos os associados, e poder através dela lutar pelos mesmos direitos dos jogadores locais. É uma luta justa, digna, merecida. Se perguntar sobre isso na rua, verá que todo o povo nos apoia. Os jogadores merecem isso. Seguiremos lutando e querendo o melhor para o nosso futebol.

Haverá alguma manifestação no jogo contra o Brasil?
Se tem alguma ação prevista, eu não posso lhe dizer (risos).

Fonte: Globoesporte.com/Por Alexandre Lozetti, Edgard Maciel de Sá e Tino Marcos, Montevidéu, Uruguai

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