Quem nunca ouviu falar no parque dos Poderes? O projeto da sede administrativa do Estado, criado pelo ex-governador Pedro Pedrossian, tinha com o intuito concentrar os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário em uma só região, para facilitar o acesso da população e o desenvolvimento dos trabalhos da máquina pública. Hoje, 40 anos depois dos primeiros esboços, vamos rememorar esta gênese e reafirmar os benefícios que o parque trouxe aos sul-mato-grossenses. Para entender melhor, vamos voltar um pouquinho no tempo e relembrar alguns fatos que marcaram época e, principalmente, a história do Estado.

Tudo começou no dia 11 de outubro de 1977, quando – ainda nos anos de chumbo–o ex-presidente Ernesto Geisel assinou a lei complementar nº 31, dividindo Mato Grosso e criando o Estado de Mato Grosso do Sul. A data virou marco de independência da região sul do Estado em relação à capital Cuiabana. Enquanto alguns ainda condenavam a divisão, outros argumentam que ela serviria para impulsionar o desenvolvimento em ambos os Estados.

Com a emancipação concretizada, Mato Grosso do Sul teve de caminhar com as próprias pernas e criar seus próprios Poderes, já que a separação deixou os deputados estaduais, funcionários do Tribunal de Conta, da Governadoria, do Tribunal de Justiça entre outros órgãos “desabrigados”.

Assim que Pedrossian assumiu o comando do Executivo estadual, em 1980, decidiu que queria deixar Campo Grande com “cara” de Capital, dando o suporte necessário para que pudesse se desenvolver. “Um belo dia, o Pedrossian passava pela rua Padre João Crippa com a Barão de Melgaço, onde ficava o departamento de obras públicas, e mandou me chamar. Disse que queria dar a Campo Grande um ar de Capital, porque aqui parecia uma cidadezinha no interior do Brasil”, diz o arquiteto Elvio Garabini, que trabalhou com Pedrossian.

Segundo o arquiteto, a ideia de construir a sede de políticas públicas já vinha desde o governo de Harry Amorim Costa, porém a proposta inicial consistia em uma única edificação de 33 andares. “Quando o Harry saiu, nós nos deparamos com um projeto subliminar para a nova sede de governo de Mato Grosso do Sul a se instalar ali mesmo na região que hoje é o parque dos Poderes. Ele deu o nome de Centro de Políticas Administrativas. O arquiteto que fez o projeto era famosíssimo, Sergio Bernardes, do Rio de Janeiro. Ele fez o desenho de uma torre de 33 andares que concentraria toda a estrutura administrativa do Estado. Mas, quando o Pedrossian assumiu a proposta mudou”, diz Garabini.

Com a missão dada, Garabini foi à Bahia, Estado que tinha um centro de políticas administrativas nos moldes pretendidos por Pedrossian, para conhecer a ideia in loco. “Quando eu voltei para Campo Grande ele me perguntou se nós tínhamos condições de fazer. Eu respondi, ‘é claro que temos condições de fazer’”.

Com o sinal verde, realizou-se um concurso público com o apoio do Instituto de Arquitetos do Brasil. Foram apresentados 13 projetos, e um deles incluía o traçado urbanístico do rio Anhanduí. “Naquela época não existia a passagem pela Afonso Pena, porque ela parava na Ceará. O shopping não existia, era uma fazenda enorme. Todo o acesso do parque seria pela Mato Grosso, mas esse projeto estava completo, tinha até o sistema viário já montado. Num primeiro momento, concurso era só para a estrutura das secretarias. Mas, o Pedro gostou tanto do projeto da Assembleia, do Tribunal de Justiça que acabou planejando para o futuro. Ele olhou o desenho e falou, ‘esse aqui vai para a Assembleia, esse para o Tribunal de Justiça’. Aí nós chamamos os arquitetos e começamos a trabalhar. Depois disso veio o Tribunal de Contas, o Centro de Convenções Rubens Gil de Camillo. A moçada que mexia com arquitetura estava cheia de serviço”, lembra Garabini.

O novo centro administrativo precisava de um nome, mas Pedrossian não gostava da denominação “Centro de Políticas Administrativas”. Então, pensou em duas sugestões: parque dos Três Poderes e parque dos Poderes. Com o desenvolver do projeto, se sobressaiu a segunda opção.

A área na qual o projeto foi desenvolvido pelo Executivo Estadual pertencia a Sanemat(Companhia de Saneamento do Estado de Mato Grosso), que com a separação do Estado se transformou em Sanesul (Empresa de Saneamento Básico de Mato Grosso do Sul). O ex-deputado estadual e engenheiro civil Antônio Carlos Arroyo era, à época, diretor-presidente do Departamento de Obras Públicas do Estado. Segundo ele, a preservação da mata foi uma das preocupações do governo durante o projeto. “Pedrossian queria preservar as nascentes daquela mata imensa. Tentamos seguir, ao máximo possível, as curvas de nível do terreno, preservar a área de vegetação para não ter problemas de erosão, porque o terreno ali é muito arenoso”, recorda Arroyo.

Há 34 anos as secretarias foram entregues, e o projeto ficou parado nas gestões seguintes. Com o retorno de Pedrossian, em 1991, o projeto teve continuidade, com a construção do Centro de Convenção, da Assembleia Legislativa e do Tribunal de Contas do Estado.

Um dos maiores benefícios que o projeto trouxe para a época foi no setor da economia, pois com os prédios próprios, o governo não precisaria mais alugar espaços para o funcionamento da máquina pública. “O aluguel era mais puxado em função da crise econômica que estávamos atravessando. Na época, todo mundo alugava casa para o governo. A sede do governo era onde hoje é o Memorial da Cultura Apolônio de Carvalho”, lembra Garabini.

Hoje, além da estrutura do executivo estadual, o parque dos Poderes abriga a TVE (TV Educativa), o MPE (Ministério Público Estadual), o TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul), o TCE (Tribunal de Contas do Estado), a ALMS (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul), a Delegacia da Receita Federal do Brasil em Campo Grande, o TRE (Tribunal Regional Eleitoral), o Bope (18º Batalhão de Operações Policiais Especiais), o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), o Centro de Convenções Rubens Gil de Camillo, o Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul) e o Cras (Centro de Reabilitação de Animais Silvestres).

Espaço verde, segurança e tranquilidade atraem centenas de pessoas todos os dias
Mas, o parque dos Poderes não é apenas um espaço para a instalação da máquina pública. Em seus milhares de metros quadrados de área verde, por suas calçadas cercadas de natureza, os campo-grandenses circulam todos os dias e nos fins de semana. Casais utilizam o espaço para caminhadas. Famílias passeiam no verde que marca o parque e se deparam com uma fauna ainda presente, repleta de quatis, capivaras, e até imensos tamanduás que, volta e meia, cruzam as avenidas do parque dos Poderes remetendo as pessoas a um passado tão presente para os sul-mato-grossenses.

As funcionárias públicas Heloise Gimenes e Gláucia Jandré dizem que gostam de caminhar pelo parque dos Poderes por conta do pouco movimento. “Gosto daqui porque é seguro. Muita sombra, pouco movimento, o local é fresco. Pelo menos umas três vezes na semana a gente vem aqui, e quando o local está fechado, como nos fins de semana, também trazemos as crianças”, diz Gláucia. O aposentado Adalto Machado, que mora no Estrela Dalva, bairro próximo do parque, também tem o hábito de passear pelo local. “Gosto, acho seguro. De vez em quando, minha mulher e meus filhos vêm comigo fazer exercícios e caminhar”, disse.

Em 15 de junho de 2015 o governador Reinaldo Azambuja sancionou o projeto de lei que instituiu o “Projeto Amigos do Parque”, no parque dos Poderes/parque do Prosa. O projeto disponibilizou à população um espaço para a prática de atividades físicas, esportivas, de recreação e turismo. Para isso, uma das vias do parque dos Poderes é interditada aos sábados, domingos e feriados, sempre das 7h às 19h e ainda contou com a implantação de ciclovias devidamente sinalizadas. (AL)

Fonte: O Estado Online/Alana Regina

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